
Doce Colombina
Meus pensamentos me traem, surtão em minha cabeça, acabo traduzindo a fisionomia de um verdadeiro apaixonado, um cristão em busca de perdão, o preceptor que vela a virtude do amor.
Falar do amor no início desse comentário acaba dando em ar de romance ao texto, impressão tão causal que acabo não querendo publicá-lo.
Deparo-me num abismo, cercado por todos os lados, como uma borboleta que está ameaçada a perder seu casulo e não completar sua metamorfose ambulante metamorfose.
Nem sei se desfrutei do Dom Supremo, (segundo o livro, o amor), acho que de tanto idealizá-lo acabo me transportando para um mundo irreal, tomado por um ar de pessimismo, onde ninguém me ame e nunca completarei essa virtude.
Encontro-me agora nas ladeiras de Olinda, onde é preciso olhar para o lado para se perder, aos sons dos clarins de momo a alegria contagia, não tem como ficar parado.
Ó linda quero cantar a ti, sem noção. Lá estava ela no meio da multidão, passando pelo Bloco da Saudade, ela que de tão radiante deixa se contagiar pelo Carnaval e vira a Colombina e Eu o Alerquim, desinência quase incerta.
Não quero me autodenominar Alerquim pois estarei novamente dando um ar de romance ao meu texto.
Ela me faz sorrir, ela me faz chorar, ela me faz partir, ela me faz ficar, ela me manda embora depois vai buscar, tem muitos amores mais amor não há. O mistério confuso, confundido, confusão ela que contagia o amor com a sua afeição. Ela faz sempre o Certo caminhado pelo Errado.
Agora vejo que o amor não tem bons sentimentos, porque haveria de ter? Ela é a prova viva de que o pecado habita seu corpo, adentra sua alma e a conduz a atos sem respostas. Seus olhos brilham com a chama do desejo e adoça seu lado negro, feitiço fatal, uma Medusa dotada de feições.
Volto ao Recife, agora no Galo da Madrugada, o maior bloco do mundo, tanta gente, tanta alegria e Eu o Alerquim chorando pelo amor dessa Colombina, no meio da multidão. Ela me vê, entre um sorriso e outro uma pausa para me atacar com seu olhar, um olhar devastador que atravessa minha alma.
Quem se relaciona com ela fica preso para sempre e não consegue sair, seu poder ipnótico congela nosso senso de perigo. Acho que gosto de tudo isso que se passa, do seu beijo do qual nunca provei, seu rosto e o gosto do pecado que a cerca. Tenho certeza que ela conseguiu o que quis, me usou, transpondo minha alma para seu mundo, lá só ela te influência, não porque é seu mundo e sim por que manipula a si mesma, é imprevisível e o mais Puro dos Anjos não entenderia.
Já tentei compreendê-la, mas nem isso sou capaz, ela usa como defesa o ataque, se apossando das nossas fraquezas, domina meu domínio e me deixa dominado.
Torno a vê-la no Recife Antigo, agora já é noite e se torna mais fácil me usar, a noite suas agilidades aumentar. Blocos se cruzam e lá está, agora com um certo cinismo, parece que está em perfeita harmonia com os blocos e suas marchinhas, mas seu verdadeiro objetivo se esconde atrás do seu negro olhar , seus traços fortes marcam sua fisionomia.
Minha doce Doroteia, sei que não tem culpa, age por influência, de quem? Não sei. O grande culpado disso tudo sou Eu, por alimentar sua alma de juras e promessas, quase que prometi minha alma a ti.
Não haverá outra vez, noites no Recife pra mim um esquife, onde meus sonhos estão velados, me deixastes descalço, o poeta que se alimentava dentro de mim, você conseguiu matá-lo. Depois de tudo que me causastes, olhar para mim com um olhar puro, indigna do meu perdão. Mataste a única e última pessoa que confiava em suas palavras. Tu que podia ser feliz ao meu lado, me decepciono mais que tudo. Todos achavam que fomos feitos um para o outro, hipócrita idealização.
As luzes no Recife se apagaram, e entro no Marco Zero, me sento e aprecio o cais. A frente a escultura de Brenan parece uma chama que uma chama que aos poucos se apaga, e tu estás lá, enterrada no mais profundo abismo de esperança. A lua cheia brilha ainda, ela é a certeza de que um dia voltarás.
Depois de tudo que fizeste de mau por algum momento desconcentrou do seu objetivo e acabou fazendo o bem a mim, o perdão, um baluarte que guardo em meus princípios você não conseguiu destruir. O perdão é a certeza de que um dia, não sei quando, você irá voltar e se arrependerá do que me fizeste passar, será tarde e qualquer atitude, por mais bem intencionada que seja será em vão.
Quem sabe isso foi um só um ensaio para o Balmasquê? E um dia estarei lá te esperando minha doce colombina. Não tê-la por prazer agora, e sim por AMIZADE.
Minha doce Colombina o Recife já dorme mais um Carnaval se passou, outros virão e terás a chance de provar que não foi só mais um Carnaval, que a Colombina que faz parte do seu Eu, é doce assim como meu amor por ti.
Por mais intensa que essa experiência fosse, valeu a pena ser vivida, afinal: “Todo Carnaval tem seu fim “.






